{"id":3979,"date":"2012-02-10T16:54:57","date_gmt":"2012-02-10T19:54:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/?p=3979"},"modified":"2012-02-10T16:55:34","modified_gmt":"2012-02-10T19:55:34","slug":"3979","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2012\/02\/10\/3979\/","title":{"rendered":"HERZOG: O INSTANTE DECISIVO"},"content":{"rendered":"<p>VLADIMIR HERZOG (1937-1975)<\/p>\n<p>O INSTANTE DECISIVO<\/p>\n<p>Por Lucas Ferraz <\/p>\n<p>Reproduzido do suplemento \u201cIlustrissima\u201d da Folha de S.Paulo, 5\/2\/2012<\/p>\n<p>Henri Cartier-Bresson, fundador da m\u00edtica ag\u00eancia Magnum e mestre franc\u00eas da fotografia, definiu num c\u00e9lebre ensaio de 1952 a arte do fot\u00f3grafo como a capacidade de captar um instante decisivo, para o qual deve estar alerta.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto trabalhamos, precisamos ter certeza de que n\u00e3o deixamos nenhum buraco, de que exprimimos tudo; depois ser\u00e1 tarde demais, e n\u00e3o haver\u00e1 como retomar o acontecimento \u00e0s avessas\u201d, escreveu ele.<\/p>\n<p>O instante decisivo na vida do fot\u00f3grafo santista Silvaldo Leung Vieira foi tamb\u00e9m um instante decisivo para a vida pol\u00edtica brasileira. Aluno do curso de fotografia da Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo, Silvaldo fez em 25 de outubro de 1975, aos 22 anos, a mais importante imagem da hist\u00f3ria do Brasil naquela d\u00e9cada: a foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog, pendurado por uma corda no pesco\u00e7o, numa cela de um dos principais \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o, o DOI-Codi (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es \u2013 Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna).<\/p>\n<p>Publicada na imprensa, a imagem corroborou a tese de que o \u201csuic\u00eddio\u201d de Herzog era uma farsa. No mesmo local, tr\u00eas meses depois, o mesmo fot\u00f3grafo testemunharia a morte do metal\u00fargico Manoel Fiel Filho. Assassinado sob tortura, ele tamb\u00e9m foi apresentado pelo regime como \u201csuicida\u201d.<\/p>\n<p>Historiadores s\u00e3o un\u00e2nimes: ambas as mortes foram decisivas para mudar os rumos da ditadura.<\/p>\n<p>A Folha de S.Paulo localizou Silvaldo em Los Angeles, onde vive desde agosto de 1979, quando saiu de f\u00e9rias do cargo de fot\u00f3grafo do Instituto de Criminal\u00edstica para nunca mais voltar. Pela primeira vez, ele contou detalhes sobre sua atua\u00e7\u00e3o na pol\u00edcia t\u00e9cnica de S\u00e3o Paulo. \u201cAinda carrego um triste sentimento de ter sido usado para montar essas mentiras\u201d, afirmou, por telefone.<\/p>\n<p>Sentindo-se amea\u00e7ado e perseguido pelo regime a que serviu, ele afirma n\u00e3o ter tido alternativa a n\u00e3o ser abandonar o emprego no servi\u00e7o p\u00fablico e tamb\u00e9m o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Concurso<\/p>\n<p>O Di\u00e1rio Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo de 6 de junho de 1975 informou, na p\u00e1gina 59, o nome dos 24 aprovados no concurso de fot\u00f3grafo da Pol\u00edcia Civil. Silvaldo era o de n\u00famero 17. As aulas preparat\u00f3rias, na Academia de Pol\u00edcia, no campus da USP, come\u00e7aram no dia 8 de outubro. Deixou a casa da m\u00e3e, em Santos, e juntou-se aos estudantes \u201cforasteiros\u201d no alojamento da escola, na Cidade Universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nascido em 1953, de pai chin\u00eas e m\u00e3e paulista, Silvaldo se envolveu com fotografia ainda crian\u00e7a, por influ\u00eancia da fam\u00edlia. Foi fot\u00f3grafo da prefeitura e atuou no jornal Cidade de Santos. Em 1974, vislumbrou na fotografia cient\u00edfica a oportunidade de \u201cdesvendar crimes\u201d e \u201cproduzir provas t\u00e9cnicas\u201d, al\u00e9m de se aprimorar usando novos equipamentos.<\/p>\n<p>Dezessete dias depois de iniciar o curso, Silvaldo foi convocado para sua primeira \u201caula pr\u00e1tica\u201d no \u00faltimo fim de semana do m\u00eas. \u201cDisseram apenas que era um trabalho sigiloso e que eu n\u00e3o deveria contar para ningu\u00e9m. A requisi\u00e7\u00e3o veio do Dops\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, o principal centro de repress\u00e3o da Pol\u00edcia Civil, estava sob a influ\u00eancia do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, que tinha livre tr\u00e2nsito na linha dura das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Um motorista levou Silvaldo at\u00e9 um complexo na rua Tutoia, em S\u00e3o Paulo, cidade que at\u00e9 hoje ele diz n\u00e3o conhecer bem.<\/p>\n<p>Suic\u00eddios<\/p>\n<p>No Brasil de 1975, os \u201csuic\u00eddios\u201d nos por\u00f5es da repress\u00e3o eram quase uma rotina. Um deles foi o do tenente reformado da PM paulista e militante do PCB Jos\u00e9 Ferreira de Almeida, o Piracaia, que morreu ap\u00f3s ser detido no DOI-Codi, em agosto. Segundo o relato oficial, Piracaia se enforcou amarrando o cinto do macac\u00e3o \u00e0 grade da cela.<\/p>\n<p>Os \u201csuic\u00eddios\u201d eram fonte de discuss\u00e3o no governo Geisel (1974-79) e de atritos entre militares e o governador de S\u00e3o Paulo, Paulo Egydio Martins. Em 1975, segundo Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e \u00e0 Verdade (2007), livro editado pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 14 militantes foram mortos por agentes do Estado.<\/p>\n<p>A ditadura completava mais de uma d\u00e9cada tendo aniquilado quase a totalidade da esquerda armada nas grandes cidades e engrossava a ca\u00e7ada aos militantes do Partido Comunista Brasileiro. Mais de 200 pessoas foram presas.<\/p>\n<p>Entre os detidos na ofensiva contra o PCB estava Vladimir Herzog. Aos 38 anos, casado e pai de dois filhos, Vlado, como era conhecido, era diretor de jornalismo da TV Cultura. Profissional com experi\u00eancia internacional e apaixonado por teatro, ele militava no partido, mas, segundo amigos, n\u00e3o exercia atividades clandestinas, nem poderia ser apontado como um quadro fixo do partido, que \u00e0quela altura j\u00e1 considerava a luta armada um grande erro.<\/p>\n<p>Na sexta, 24 de outubro, Vlado foi procurado por agentes da repress\u00e3o em casa e no trabalho. Decidiu se apresentar espontaneamente no DOI-Codi na manh\u00e3 seguinte. Nas sete horas em que esteve detido na rua Tutoia, no Para\u00edso, onde ficava o centro do Ex\u00e9rcito, o jornalista prestou depoimento e passou por acarea\u00e7\u00f5es. Segundo testemunhas, morreu ap\u00f3s ser barbaramente torturado.<\/p>\n<p>Quando Silvaldo chegou ao DOI-Codi para fotografar o cad\u00e1ver de Herzog, a cena do \u201csuic\u00eddio\u201d estava montada. Numa cela, o corpo pendia de uma tira de pano atada a uma grade da janela. As pernas estavam arqueadas e os p\u00e9s, no ch\u00e3o. Completavam o cen\u00e1rio papel picado (um depoimento que fora for\u00e7ado a assinar) e uma carteira escolar.<\/p>\n<p>Na mesma cela morrera Piracaia, segundo o livro Dos Filhos deste Solo (Boitempo), de Nilm\u00e1rio Miranda e Carlos Tib\u00farcio.<\/p>\n<p>Vibra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Silvaldo chegou ali com uma Yashica 6&#215;6 TLR, c\u00e2mera tipo caix\u00e3o, biobjetiva, com visor na parte de cima, semelhante a uma Rolleiflex.<\/p>\n<p>\u201cEu estava muito nervoso, toda a situa\u00e7\u00e3o foi tensa. Antes de chegar na sala onde estava o corpo, passei por v\u00e1rios corredores\u201d, conta ele.<\/p>\n<p>\u201cHavia uma vibra\u00e7\u00e3o muito forte, nunca senti nada igual. Mas n\u00e3o me deixaram circular livremente pela sala, como todo fot\u00f3grafo faz quando vai documentar uma morte. N\u00e3o tive liberdade. Fiz aquela foto praticamente da porta. N\u00e3o fiquei com nada, c\u00e2mera, negativo ou qualquer registro. S\u00f3 dias depois fui entender o que tinha acontecido.\u201d<\/p>\n<p>Ele diz ter come\u00e7ado a montar o quebra-cabe\u00e7a no domingo, quando o jornalista foi velado, ao descobrir que tinha fotografado o corpo de Vladimir Herzog. Depois, viu a foto no Jornal do Brasil, o primeiro ve\u00edculo da imprensa a publicar a imagem, ainda em 1975. No in\u00edcio dos anos 80, a revista Veja a publicaria creditando o autor: \u201cSilvaldo Leung Vieira, Depto. de Pol\u00edcia T\u00e9cnica, Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica, S\u00e3o Paulo, 1975\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTudo foi manipulado, e infelizmente eu acabei fazendo parte dessa manipula\u00e7\u00e3o\u201d, lamenta-se. \u201cDepois me dei conta que havia me metido em uma roubada. Isso aconteceu, acho, porque eles precisavam simular transpar\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Nota oficial<\/p>\n<p>J\u00e1 antes da divulga\u00e7\u00e3o da foto, a vers\u00e3o do suic\u00eddio, dada pelos militares em nota oficial, foi recebida com suspic\u00e1cia. \u201cCerca das 16h, ao ser procurado na sala onde fora deixado, desacompanhado, foi encontrado morto, enforcado, tendo para tanto utilizado uma tira de pano. O papel, contendo suas declara\u00e7\u00f5es, foi achado rasgado, em peda\u00e7os, os quais, entretanto, puderam ser recompostos para os devidos fins legais\u201d, dizia o texto do 2\u00ba Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>A nota n\u00e3o batia com o relato da mulher do jornalista, Clarice, que foi avisada por Vladimir de que se apresentaria espontaneamente para depor. Amigos dele, como os jornalistas Rodolfo Konder e Paulo Markun, presos no DOI-Codi no mesmo dia, afirmaram que era poss\u00edvel ouvir gritos e gemidos de Herzog enquanto era torturado.<\/p>\n<p>O Ex\u00e9rcito afirmou que a tira de pano amarrada no pesco\u00e7o de Vladimir Herzog, visto pela repress\u00e3o como um agente da KGB, o servi\u00e7o secreto da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, seria a cinta do macac\u00e3o que usava. Mas os macac\u00f5es do DOI-Codi n\u00e3o tinham cinta.<\/p>\n<p>Embora o laudo do Instituto M\u00e9dico Legal afirmasse que a causa mortis foi \u201casfixia mec\u00e2nica por enforcamento\u201d, Herzog n\u00e3o foi sepultado na ala dos suicidas do cemit\u00e9rio israelita do Butant\u00e3, conforme a tradi\u00e7\u00e3o judaica. A decis\u00e3o do rabino Henry Sobel foi considerada um desafio ao regime militar.<\/p>\n<p>A foto de Silvaldo mostrava que Vlado \u201cse enforcou\u201d atando o n\u00f3 na primeira barra da janela, a 1,63 metro de altura. A imagem divulgada \u00e0 \u00e9poca, contudo, fora cortada: descobriu-se depois, nos arquivos do SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es), uma vers\u00e3o sem corte, segundo o jornalista Elio Gaspari. Essa imagem mostra a barra superior da janela, que Herzog poderia ter usado se quisesse de fato se enforcar, subindo na carteira escolar e se projetando em v\u00e3o livre.<\/p>\n<p>S\u00e9<\/p>\n<p>Na semana seguinte \u00e0 morte do jornalista, S\u00e3o Paulo continuava convulsionada. Al\u00e9m da agita\u00e7\u00e3o estudantil na USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) que prenunciava as manifesta\u00e7\u00f5es de 1977, a missa de s\u00e9timo dia de Vlado, na catedral da S\u00e9, transformou-se num ato ecum\u00eanico de rep\u00fadio \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>Silvaldo conta que \u201cuns dez colegas\u201d seus da Academia de Pol\u00edcia foram escalados para fotografar alguns dos presentes na S\u00e9. Eles deviam atuar \u201ccomo fot\u00f3grafos de jornal\u201d, para identificar supostos subversivos.<\/p>\n<p>Edson Wailemann, 57, formou-se na turma de Silvaldo. Ele ainda se lembra do colega, apesar de n\u00e3o conhecer a hist\u00f3ria da foto de Herzog. \u00c9 fot\u00f3grafo policial h\u00e1 37 anos, atuando exclusivamente em casos de homic\u00eddio. \u201cNaqueles anos, a pol\u00edcia t\u00e9cnica sempre atendia a esses chamados, inclusive para os trabalhos dentro das depend\u00eancias do Ex\u00e9rcito\u201d, confirmou \u00e0 Folha. \u201cEra comum\u201d.<\/p>\n<p>Um ex-agente do antigo SNI que atuava nessa \u00e9poca em S\u00e3o Paulo disse \u00e0 Folha, sob condi\u00e7\u00e3o de anonimato, que a hist\u00f3ria do fot\u00f3grafo n\u00e3o \u00e9 veross\u00edmil.<\/p>\n<p>Segundo ele, o DOI-Codi, sob comando do militar Audir Santos Maciel, era um dos lugares mais herm\u00e9ticos do aparato de repress\u00e3o. Antes de Maciel, o DOI-Codi fora chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra. Parentes de desaparecidos que estiveram presos l\u00e1 tentam responsabiliz\u00e1-los judicialmente, at\u00e9 agora sem sucesso. Ustra e Maciel negam participa\u00e7\u00e3o em torturas e assassinatos.<\/p>\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o dos profissionais do Instituto de Criminal\u00edstica com a repress\u00e3o, principalmente fot\u00f3grafos e peritos, era t\u00e3o comum que, na virada dos anos 70 para os 80, foi criada uma equipe especial para atender exclusivamente os crimes ou casos pol\u00edticos. At\u00e9 ela ser formada, no entanto, v\u00e1rios profissionais foram requisitados.<\/p>\n<p>A conex\u00e3o da Pol\u00edcia Civil (Dops) com o Ex\u00e9rcito (DOI-Codi), mais do que not\u00f3ria, era feita por interm\u00e9dio de Fleury, entre outros.<\/p>\n<p>\u201cHavia um comando paralelo no Ex\u00e9rcito, e \u00e9 bem prov\u00e1vel que houvesse tamb\u00e9m um comando anarquista na Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica\u201d, disse \u00e0 Folha o ex-governador (1975-79) Paulo Egydio Martins, 84. \u201cEsse era um problema absolutamente cr\u00edtico, que infelizmente saiu do controle.\u201d<\/p>\n<p>Aula pr\u00e1tica<\/p>\n<p>Oitenta e quatro dias depois de fotografar o cad\u00e1ver de Herzog, Silvaldo foi convocado para outra \u201caula pr\u00e1tica\u201d no DOI-Codi. Era janeiro de 1976, e ele ouviu as mesmas recomenda\u00e7\u00f5es de que n\u00e3o falasse nada sobre o trabalho. Novamente, a ordem partira do Dops.<\/p>\n<p>O objetivo era forjar outra farsa: a morte do metal\u00fargico Manoel Fiel Filho, tamb\u00e9m \u201cenforcado\u201d nas depend\u00eancias do Ex\u00e9rcito. Nas contas que Elio Gaspari faz em seu livro A Ditadura Encurralada (Companhia das Letras), Fiel Filho \u201cfora o 39\u00ba suicida do regime, o 19\u00ba a se enforcar. Como Cl\u00e1udio Manuel da Costa, com as meias, sem v\u00e3o livre\u201d. (O poeta e inconfidente mineiro Cl\u00e1udio Manuel da Costa foi o patrono dos \u201csuicidas\u201d nas pris\u00f5es brasileiras. Morreu enforcado com uma meia comprida, em 1789.)<\/p>\n<p>Segundo testemunhas Fiel Filho fora detido pelos agentes do DOI-Codi de sand\u00e1lias e sem meias. \u201cFiz fotos do local onde o corpo foi encontrado, mas n\u00e3o me deixaram ver o cad\u00e1ver. Antes de fotograf\u00e1-lo, recebi uma ordem de que deveria deixar o local\u201d, afirma Silvaldo.<\/p>\n<p>Assim como ocorreu na morte de Vlado, o 2\u00ba Ex\u00e9rcito, respons\u00e1vel pelo Estado de S\u00e3o Paulo, divulgou nota atestando o \u201csuic\u00eddio\u201d. Mas n\u00e3o houve publicidade da imagem do morto no DOI-Codi.<\/p>\n<p>\u201cEu sabia que eles tinham feito merda, mas nessa segunda vez eu estava mais relaxado, fiz at\u00e9 um coment\u00e1rio: \u2018Aqui acontecem coisas estranhas\u2019\u201c, lembra Silvaldo. \u201cUm oficial do Ex\u00e9rcito que me acompanhava, que parecia ser muito jovem, me amea\u00e7ou: \u2018\u00c9 melhor ficar calado e n\u00e3o comentar nada. Se voc\u00ea n\u00e3o calar, a gente te cala\u2019.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe se o cad\u00e1ver do metal\u00fargico foi fotografado dentro do DOI-Codi. \u201cO que se conhece \u00e9 uma imagem do corpo dele nu, no necrot\u00e9rio\u201d, conta o jornalista e cineasta Jorge Oliveira, que a exp\u00f4s no document\u00e1rio que produziu, Perd\u00e3o, Mr. Fiel, em que narra, como diz o subt\u00edtulo do filme, a hist\u00f3ria do \u201coper\u00e1rio que derrubou a ditadura no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Separados por poucos meses, os assassinatos de Herzog e Fiel Filho expuseram o descontrole e a anarquia dos por\u00f5es. A linha dura, que n\u00e3o aceitava a distens\u00e3o \u201clenta e gradual\u201d que o presidente Ernesto Geisel pretendia levar a cabo, resistia, com o argumento de que o Brasil ainda estava amea\u00e7ado pelo comunismo.<\/p>\n<p>A queda de bra\u00e7o da linha dura com Geisel e seu ministro Golbery do Couto e Silva (1911-87), que levou \u00e0 queda do general Ednardo D\u2019Avila Mello, chefe da For\u00e7a em S\u00e3o Paulo, em 1976, e do ministro do Ex\u00e9rcito, Sylvio Frota, em 1977, \u00e9 narrada em detalhes por Elio Gaspari em A Ditadura Encurralada.<\/p>\n<p>\u201cTenho para mim que esses acontecimentos foram a raiz das Diretas-J\u00e1\u201d, avalia o ex-governador Paulo Egydio Martins.<\/p>\n<p>Tarefas<\/p>\n<p>Em abril de 1979, quando o pa\u00eds discutia a Lei da Anistia, Silvaldo recusou-se a participar de uma tarefa -da qual ele diz n\u00e3o se lembrar. Desde julho de 1976, j\u00e1 estava efetivado como fot\u00f3grafo da Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo, segundo seu registro funcional da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>No documento, v\u00ea-se que passou pela delegacia de Santos, a de acidentes de tr\u00e2nsito e, por fim, a Darc, Delegacia de Arquivos e Registros Criminais, onde era respons\u00e1vel por registrar os presos condenados antes que fossem transferidos para os pres\u00eddios.<\/p>\n<p>\u201cMas o trabalho ia sempre al\u00e9m\u201d, conta, \u201ce muitas vezes tinha que fotografar tamb\u00e9m presos pol\u00edticos, alguns que acabavam de sair das sess\u00f5es de tortura. Eu n\u00e3o aguentava aquilo, reclamava que minha atribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o me permitia fazer esse servi\u00e7o. E quanto mais eu questionava, mais a situa\u00e7\u00e3o ficava delicada.\u201d<\/p>\n<p>Silvaldo diz que os superiores passaram a frit\u00e1-lo por sua atitude questionadora: n\u00e3o podia tirar f\u00e9rias e chegou a ser suspenso.<\/p>\n<p>Segundo registro da Pol\u00edcia Civil ao qual a Folha teve acesso, Silvaldo foi afastado por tr\u00eas dias, nos termos da lei estadual no 207, de 1979, por \u201cdescumprimento dos deveres e transgress\u00e3o disciplinar\u201d. Em agosto, finalmente tirou f\u00e9rias e deixou o Brasil.<\/p>\n<p>EUA<\/p>\n<p>Em Los Angeles, onde est\u00e1 radicado desde ent\u00e3o, Silvaldo conta ter feito um pouco de tudo: como imigrante ilegal, ganhou dinheiro jogando xadrez e at\u00e9 como aprendiz de ourives, emprego que conseguiu gra\u00e7as a um empres\u00e1rio grego radicado nos EUA que era casado com uma conhecida dele de Santos.<\/p>\n<p>De l\u00e1, acompanhou o apagar das luzes da ditadura e viu a Uni\u00e3o ser condenada pela morte de Manoel Fiel Filho, em 1995 \u2013 no caso Herzog, a primeira condena\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o ocorreu ainda em 1978. (Ainda assim, setores das For\u00e7as Armadas frequentemente divulgam informa\u00e7\u00f5es dando conta que Herzog e Fiel Filho se mataram, omitindo os assassinatos. Em 1993, um relat\u00f3rio da Marinha dizia que Vlado se suicidou no DOI-Codi.)<\/p>\n<p>Em 1986, foi favorecido pela Lei da Anistia da Imigra\u00e7\u00e3o Americana, promovida pelo governo de Ronald Reagan (1981-89); dois anos depois, ganhou o visto de resid\u00eancia tempor\u00e1ria; em 1989, veio o selo de residente permanente. Hoje trabalha no Good Shepperd Center, institui\u00e7\u00e3o beneficente voltada para mulheres e crian\u00e7as sem-teto.<\/p>\n<p>O abandono do cargo p\u00fablico ainda lhe traz problemas. No governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), convidado a trabalhar no setor cultural do Consulado em Los Angeles, n\u00e3o p\u00f4de assumir o posto: a infra\u00e7\u00e3o administrativa at\u00e9 hoje o impede de voltar ao servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Silvaldo protocolou pedido em 2008 na Comiss\u00e3o da Anistia do governo federal para tentar receber indeniza\u00e7\u00e3o pelo tempo de servi\u00e7o como fot\u00f3grafo da Pol\u00edcia Civil. Alega ter abandonado o cargo por causa da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente eu estava no meio do caldeir\u00e3o, sempre foi muito dif\u00edcil para mim entender todo esse processo\u201d, conta. \u201cO \u00fanico conforto \u00e9 pensar que a foto que fiz do Herzog ajudou a desmontar toda a farsa\u201d. Separado e sem filhos, ele planeja voltar para o Brasil para ficar ao lado da m\u00e3e octogen\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o pretende voltar apenas para casa, mas tamb\u00e9m para a fotografia. Admirador dos fot\u00f3grafos Sebasti\u00e3o Salgado e Gale Tattersall (brit\u00e2nico que se especializou em fotos para o cinema), Silvaldo programa uma viagem ao Alasca com um grupo de Los Angeles, para registrar paisagens, em uma esp\u00e9cie de workshop.<\/p>\n<p>\u201cPreciso me atualizar, comecei na fotografia na era do preto e branco. Mudou muito.\u201d<br \/>\nPostado por Ernesto Albuquerque<a href=\"http:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2012\/02\/10\/3979\/herzog\/\" rel=\"attachment wp-att-3980\"><img data-attachment-id=\"3980\" data-permalink=\"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2012\/02\/10\/3979\/herzog\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/herzog.jpg?fit=183%2C275&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"183,275\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"herzog\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/herzog.jpg?fit=183%2C275&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/herzog.jpg?fit=183%2C275&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/herzog.jpg?resize=183%2C275\" alt=\"\" title=\"herzog\" width=\"183\" height=\"275\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3980\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VLADIMIR HERZOG (1937-1975) O INSTANTE DECISIVO Por Lucas Ferraz Reproduzido do suplemento \u201cIlustrissima\u201d da Folha de S.Paulo, 5\/2\/2012 Henri Cartier-Bresson, fundador da m\u00edtica ag\u00eancia Magnum e mestre franc\u00eas da fotografia, definiu num c\u00e9lebre ensaio de 1952 a arte do fot\u00f3grafo como a capacidade de captar um instante decisivo, para o qual deve estar alerta. \u201cEnquanto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","jetpack_publicize_message":""},"categories":[15,6],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/sYpuv-3979","jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3979"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3979"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3979\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3984,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3979\/revisions\/3984"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}