{"id":3873,"date":"2012-01-15T21:11:37","date_gmt":"2012-01-16T00:11:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/?p=3873"},"modified":"2012-01-15T21:15:07","modified_gmt":"2012-01-16T00:15:07","slug":"3873","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2012\/01\/15\/3873\/","title":{"rendered":"GUIMAR\u00c3ES ROSA: \u00daLTIMA ENTREVISTA"},"content":{"rendered":"<p>A \u00faltima entrevista de Guimar\u00e3es Rosa<\/p>\n<p>Cl\u00e1ssicos Liter\u00e1rios  A \u00faltima entrevista de Guimar\u00e3es Rosa  Uma preciosidade hist\u00f3rica da l\u00edngua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista portugu\u00eas Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimar\u00e3es Rosa morreria menos de um ano depois de t\u00ea-la concedido<\/p>\n<p>Arnaldo Saraiva<\/p>\n<p>Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura \u2014 sem os favores profissionais da medicina, que pode dar sa\u00fade mas ainda n\u00e3o deu g\u00eanio (cf. alguns pr\u00eamios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a It\u00e1lia, os Estados Unidos, o mundo, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Repara no corpo: mau grado as ligeiras amea\u00e7as de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da l\u00edngua \u00e9. V\u00ea como est\u00e1 sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como conv\u00e9m a um embaixador (ou n\u00e3o estiv\u00e9ssemos num sal\u00e3o do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avan\u00e7ou sozinho pelos grandes sert\u00f5es da l\u00edngua, n\u00e3o precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, m\u00e1scaras.<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1 o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impec\u00e1vel, fazendo pendant com os \u00f3culos claros, t\u00e3o claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E \u00e9 curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Ita\u00ad\u00adbira de Drum\u00admond, gosta, ao contr\u00e1rio deste (\u00e0 primeira vista), de falar, de con\u00adtar, de ser ouvido. At\u00e9 nisso parece grande o seu amor \u00e0 l\u00edngua. Mal me sentei, j\u00e1 ele me come\u00e7ou a falar de Portugal e de escritores portugueses&#8230;<\/p>\n<p>Estive em Portugal tr\u00eas vezes. Na primeira, em 1938, passei l\u00e1 apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei l\u00e1 quinze dias, em cumprimento de uma miss\u00e3o diplom\u00e1tica que me fora confiada em Ham\u00ad\u00adburgo. Na terceira, em 1942, passei um m\u00eas, pois estava j\u00e1 de regresso ao Brasil, por causa da guerra.<\/p>\n<p>Durante essas estadas, travou rela\u00e7\u00f5es ou conhecimentos com alguns escritores?<\/p>\n<p>N\u00e3o. At\u00e9 porque eu ainda n\u00e3o era \u201cescritor\u201d (\u201cSagarana\u201d, com efeito, s\u00f3 foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto mui\u00adto do portugu\u00eas, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro tamb\u00e9m \u00e9 gente muito boa, mas \u00e9 mais superficial, \u00e9 mais areia, enquanto o portugu\u00eas \u00e9 mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha fam\u00edlia do lado Gui\u00admar\u00e3es \u00e9 de Tr\u00e1s-os-Montes. Em Minas o que se v\u00ea mais \u00e9 a casa minhota, mas na regi\u00e3o em que eu nasci havia uma \u201cilha\u201d transmontana.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o chegou a conhecer Aquilino?<\/p>\n<p>Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, n\u00e3o sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi al\u00adguns livros dele, o empregado per\u00adguntou-me se eu queria co\u00adnhec\u00ea-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou tr\u00eas aut\u00f3grafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, n\u00e3o se recordava de mim (porque eu n\u00e3o me apresentara como escritor), e eu tamb\u00e9m n\u00e3o lhe falei do assunto.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabe que, justamente numa cr\u00f4nica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de Jos\u00e9 Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os &#8220;not\u00e1veis escritores e poetas&#8221; que estavam a &#8220;encostar a pena contra a lava&#8221; que ia no Brasil &#8220;sepultando pros\u00f3dia e morfologia da l\u00edngua-mater&#8221;? Eu creio mesmo que \u00e9 essa uma das primeiras refer\u00eancias ao seu nome, em Portugal&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia dessa curiosa refer\u00eancia do Aquilino. Antes dessa, por\u00e9m, h\u00e1 uma refer\u00eancia a mim numa publica\u00e7\u00e3o do Consulado do Porto, de 1947, feita por n\u00e3o sei quem. Sei de outra refer\u00eancia feita, anos depois, salvo erro, por um irm\u00e3o de Jos\u00e9 Os\u00f3rio de Oliveira.<\/p>\n<p>Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influ\u00eancia dele? J\u00e1, pelo menos, um cr\u00edtico, o mineiro F\u00e1bio Lucas, notou alguns \u201cpontos de contato nada desprez\u00e1veis\u201d entre a sua obra e a de Aquilino.<\/p>\n<p>Eu gosto de Aquilino, sobretudo da \u201cAventura Maravilhosa\u201d, mas n\u00e3o creio que dele tenha recebido alguma influ\u00eancia, a n\u00e3o ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade \u00e9 que antes de 1941 s\u00f3 conhecia de Aquilino um ou dois trechos, co\u00admo infelizmente ainda hoje sucede em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, \u201cSagarana\u201d, foi escrito em 1937.<\/p>\n<p>Um gar\u00e7om do Itamarati entra com um copo de \u00e1gua, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimar\u00e3es Rosa agradece e diz: V\u00e1 com Deus, como se fosse um beir\u00e3o ou um transmontano. Mais uma raz\u00e3o, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prest\u00edgio de que goza nos meios intelectuais e universit\u00e1rios portugueses?<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equ\u00edvocos, que ainda hoje n\u00e3o desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, n\u00e3o houve em Por\u00adtugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudi\u00e7\u00e3o. Ora o que sucede \u00e9 que eu me limitei a explorar as virtualidades da l\u00edngua, tal como era falada e entendida em Minas, regi\u00e3o que teve durante muitos anos liga\u00e7\u00e3o direta com Portugal, o que explica as suas tend\u00eancias arcaizantes para l\u00e1 do vocabul\u00e1rio muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paix\u00e3o pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem n\u00e3o s\u00e3o feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fern\u00e3o Mendes Pinto, em quem ainda h\u00e1 tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no \u201cGrande Sert\u00e3o\u201d: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ningu\u00e9m: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a\u201d Hist\u00f3ria Tr\u00e1gico-Mar\u00edtima\u201d (cole\u00e7\u00e3o de relatos e not\u00edcias de naufr\u00e1gios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Ber\u00adnardo Gomes de Brito e publicados em 1735). J\u00e1 v\u00ea, por aqui, que as minhas \u201cra\u00edzes\u201d es\u00adt\u00e3o em Portugal e que, ao contr\u00e1rio do que possa parecer, n\u00e3o \u00e9 grande a dist\u00e2ncia \u201clingu\u00edstica\u201d que me se\u00adpara dos portugueses.<\/p>\n<p>Eu penso at\u00e9 que na imediata e incondicional ades\u00e3o portuguesa a Gui\u00admar\u00e3es Rosa h\u00e1 muito de transfer\u00eancia sublimada de uma frustra\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica nossa, coletiva, que vem pelo menos desde E\u00e7a. Mas n\u00e3o nos desviemos. Admira-me muito que n\u00e3o tenha citado ne\u00adnhum livro de ca\u00advalaria, nem ne\u00adnhuma novela bu\u00adc\u00f3lica, pois pensava que deles e delas havia diversas resson\u00e2ncias na sua obra, sobretudo no \u201cGran\u00adde Sert\u00e3o: Veredas\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Ber\u00adnardim (Bernardim Ri\u00adbeiro), e depois at\u00e9 com Camilo. Ainda continuo a gostar de Ca\u00admilo, mas quem releio permanentemente \u00e9 E\u00e7a de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescen\u00e7a ler \u201cOs Maias\u201d; este ano j\u00e1 reli quase todo \u201cO Crime do Padre Amaro\u201d e parte da \u201cIlustre Casa de Ramires\u201d). Camilo, leio-o como quem vai visitar o av\u00f4; E\u00e7a, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu s\u00f3 queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Ali\u00e1s deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que h\u00e1 por l\u00e1. E talvez seja tamb\u00e9m por isso que se h\u00e1 um pa\u00eds a que eu gostaria de voltar \u00e9 Portugal&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; que, naturalmente, o receber\u00e1 de bra\u00e7os abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como \u201cenveredou\u201d &#8211; e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso &#8211; pelo campo da \u201cinven\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica?<\/p>\n<p>Quando escrevo, n\u00e3o pen\u00adso na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta \u00e0 minha repulsa f\u00edsica pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou \u00e0 outra necessidade \u00edntima de enriquecer e embelezar a l\u00edngua, tornando-a mais pl\u00e1stica, mais flex\u00edvel, mais viva. Da\u00ed que eu n\u00e3o tenha nenhum processo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica: eu quero aproveitar tudo o que h\u00e1 de bom na l\u00edngua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo\u00ad\u00e7ambique, e at\u00e9 de outras l\u00ednguas: pela mesma raz\u00e3o, recorro tanto \u00e0s esferas populares como \u00e0s eruditas, tanto \u00e0 cidade como ao campo. Se certas palavras bel\u00edssimas como \u201cgramado\u201d, \u201caloprar\u201d, pertencem \u00e0 g\u00edria brasileira, ou como \u201cmalga\u201d, \u201cazinhaga\u201d, \u201cazenha\u201d s\u00f3 correm em Por\u00adtugal \u2014 ser\u00e1 essa raz\u00e3o suficiente para que eu as n\u00e3o empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. H\u00e1 muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso \u00e9 o que me leva a buscar ou a criar outras. E fa\u00e7o-o sem\u00adpre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a l\u00edngua. Escrever, para mim, \u00e9 como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com rela\u00e7\u00f5es de palavras, de express\u00f5es. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um ca\u00adderninho e um l\u00e1pis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido \u2014 at\u00e9 o cantar de p\u00e1ssaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitr\u00e1rio, mas se pegar, pegou. A verdade \u00e9 que a tarefa que me impus n\u00e3o pode ser s\u00f3 realizada por mim.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspond\u00eancia com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as d\u00favidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a min\u00facia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele pr\u00f3prio, preciosas autoan\u00e1lises estil\u00edsticas ou considera\u00e7\u00f5es filol\u00f3gicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confiss\u00f5es interessantes. Por exemplo:  \u201cgosto das tradu\u00e7\u00f5es que filtram. Da tradu\u00e7\u00e3o italiana do Cor\u00adpo de Baile gosto mais do que do original.\u201d Ou: \u201cEstou cheio de coisas para escrever, mas o tempo \u00e9 pouco, o trabalho \u00e9 lento, lambido, e a sa\u00fade tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 muita.\u201d Ou: \u201cN\u00e3o fa\u00e7o vida liter\u00e1ria: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho at\u00e9 tarde.\u201d Ou: \u201cNo pr\u00f3ximo ano, vou publicar um livro ainda sem t\u00edtulo, com 40 est\u00f3rias\u201d (que t\u00eam aparecido quinzenalmente, no jornal dos m\u00e9dicos \u201cO Pulso\u201d, onde frequentemente aparecem tamb\u00e9m cartas ou a atac\u00e1-lo ou a defend\u00ea-lo ferozmente). Ou ainda: \u201ceu n\u00e3o gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confus\u00e3o; e n\u00e3o estou assim t\u00e3o seguro do que procuro e do que quero. Com voc\u00ea abri uma exce\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Nota: Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro \u201cConversas com Escritores Brasileiros\u201d, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.<br \/>\nPostado por Ernesto Albuquerque<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima entrevista de Guimar\u00e3es Rosa Cl\u00e1ssicos Liter\u00e1rios A \u00faltima entrevista de Guimar\u00e3es Rosa Uma preciosidade hist\u00f3rica da l\u00edngua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista portugu\u00eas Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimar\u00e3es Rosa morreria menos de um ano depois de t\u00ea-la concedido Arnaldo Saraiva Eis o homem. 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