{"id":2437,"date":"2011-05-02T15:57:18","date_gmt":"2011-05-02T18:57:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/?p=2437"},"modified":"2011-05-02T15:57:18","modified_gmt":"2011-05-02T18:57:18","slug":"dia-do-trabalho-e-o-fim-de-algumas-profissoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2011\/05\/02\/dia-do-trabalho-e-o-fim-de-algumas-profissoes\/","title":{"rendered":"DIA DO TRABALHO E O FIM DE ALGUMAS PROFISS\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>Dia de que tipo de trabalho? <\/p>\n<p>Ap\u00f3s o Primeiro de Mar\u00e7o, pesquisador da &#8220;Revista de Hist\u00f3ria&#8221; fala sobre o fim de alguns tipos de carreiras, como chapeleiros, fot\u00f3grafos lambe-lambe e fiandeiras <\/p>\n<p>Mais um Primeiro de Maio se passa. Mais um dia em que se comemora a luta e a experi\u00eancia dos trabalhadores. Pensado em g\u00eanese pela Associa\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho ? igualmente conhecida como a Primeira Internacional, criada em 1864 ?, o Primeiro de Maio toma a cena a partir de 1889 como um dia dedicado \u00e0 luta internacional dos trabalhadores, em alus\u00e3o aos protestos e confrontos de Chicago em 1886. A data permanece firme como s\u00edmbolo importante de trajet\u00f3rias e experi\u00eancias t\u00e3o ricas em nossa hist\u00f3ria; j\u00e1 a classe trabalhadora se transformou bastante ao longo desses 122 anos.<\/p>\n<p> De fato, entre os anos 1970 e 1980, a desconfian\u00e7a quanto ao futuro do proletariado como sujeito importante para o processo de transforma\u00e7\u00e3o social esteve em xeque. No Brasil n\u00e3o foi muito diferente. As formas de produ\u00e7\u00e3o mudavam, assim como as f\u00e1bricas e suas demandas de vagas. Juntamente com a chamada reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e a flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, trabalhadores de diferentes setores perderam seus empregos e outros apenas viram-no se extinguir com a passagem do tempo e a acelera\u00e7\u00e3o da tecnologia.<\/p>\n<p>Os efeitos em diferentes campos da atua\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica humana foram t\u00e3o diversos quanto os acontecimentos ocorridos no contexto global nos \u00faltimos 50 anos. Richard Sennett, professor da London School of Economics, aponta em seu livro \u201cA corros\u00e3o do car\u00e1ter\u201d que a natureza flex\u00edvel do capitalismo infligiu um duro golpe ao universo do trabalho. A rotina, a burocracia e a estrutura se mostravam mais perenes at\u00e9 pouco depois da metade do s\u00e9culo XX. \u201cCarreira\u201d, para ele, era justamente a profiss\u00e3o como o significado de perspectiva econ\u00f4mica e uma identidade mais clara, mais concreta, para o indiv\u00edduo, quando este se inseria socialmente e economicamente em uma estrutura de trabalho. <\/p>\n<p>Esta perspectiva, no entanto, veio se tornando cada vez mais rarefeita frente ao novo mundo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Onde o choque de gera\u00e7\u00f5es entre velhos e novos trabalhadores apenas tornou maior entre eles o \u201cabismo\u201d de suas diferen\u00e7as. Afinal, quantos of\u00edcios se apagaram, como l\u00e2mpadas que se queimam por n\u00e3o resistirem \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es da corrente que as alimenta?<\/p>\n<p>Datil\u00f3grafos, operadores de mime\u00f3grafos, motorneiros e cobradores de bonde, telegrafistas, amoladores de facas e funileiros (que consertavam panelas de alum\u00ednio), chapeleiros, sapateiros, alfaiates, telefonistas, fiandeiras e tecel\u00f5es, lanterninhas de cinema, entre tantas outras. Muitas destas profiss\u00f5es encontraram seu fim ao passo que a sociedade se abriu cada vez mais para o mercado de consumo e se modernizou. Para aqueles que foram \u201ca pique\u201d junto com seus of\u00edcios, a constata\u00e7\u00e3o de um \u201cdesencaixe\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio do trabalho e ao seu papel social continuam a fazer parte do seu dia a dia.<\/p>\n<p>Embora muitas profiss\u00f5es tenham acabado, ou estejam em vias de acabar, a lembran\u00e7a de muitos trabalhadores \u00e9 surpreendentemente viva. O lugar de trabalho para muitos foi o espa\u00e7o onde mais eles estiveram atuantes por anos. Em grande parte, suas redes sociais foram criadas no percurso de suas carreiras. Hoje, n\u00e3o apenas postos de trabalho, of\u00edcios, chegaram ao fim, como chegaram tamb\u00e9m ao t\u00e9rmino muito do conv\u00edvio social de in\u00fameros trabalhadores.<\/p>\n<p>As palavras de uma velha senhora, fiandeira de f\u00e1bricas de tecidos localizadas no bairro do Caju no Rio de Janeiro, parecem mostrar adequadamente o quanto sua saudade era a medida da solid\u00e3o que vivia at\u00e9 ent\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cPuxa vida, saudades do trabalho\u201d, falou Dona Esmeralda, oper\u00e1ria da antiga Cia. Am\u00e9rica Fabril, em uma entrevista h\u00e1 cerca de seis anos: \u201ceu tive muitos amigos at\u00e9 hoje da Am\u00e9rica Fabril, sinto saudades, sinto amor pelo meu trabalho; eu j\u00e1 te disse que se ela [a f\u00e1brica] tivesse rodando, (&#8230;) eu, com essa idade, estaria l\u00e1, nem que fosse pra varrer (&#8230;) nem que fosse no banheiro, pra limpar o banheiro, eu ficava, eu ficava.\u201d<\/p>\n<p>Algumas profiss\u00f5es, como afinador de pianos ou alfaiate, est\u00e3o sempre sob amea\u00e7a constante ao passo que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o indispens\u00e1veis. Enquanto isso, outras se tornaram parte da hist\u00f3ria. O fot\u00f3grafo lambe-lambe \u00e9 um desses. Na era da tecnologia digital um saber quase artesanal na confec\u00e7\u00e3o de lembran\u00e7as em papel fotogr\u00e1fico deixou de ter seu lugar. No Rio e em Minas Gerais cogitou-se torn\u00e1-lo patrim\u00f4nio cultural com o objetivo de evitar que tal pr\u00e1tica de valor hist\u00f3rico se perca no tempo. Coisa que se tornou realidade em terras cariocas a partir de 2005, com o Decreto Municipal n\u00b0. 25.678.<\/p>\n<p>J\u00e1 os chapeleiros e os relojoeiros s\u00e3o cada vez mais raros. Afirmar que o rel\u00f3gio e o chap\u00e9u n\u00e3o s\u00e3o mais usados \u00e9 um erro. Entretanto, a rela\u00e7\u00e3o que o homem manteve com tais elementos se tornou muito mais ef\u00eamera. Rel\u00f3gios, chap\u00e9us e sapatos; panelas, talheres e tantos outros bens; podem ser comprados e substitu\u00eddos por novos modelos. Mais modernos. Comprados e n\u00e3o mais consertados ou preservados. Assim o mercado decretou o fim de muitas profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cHoje em dia o chap\u00e9u n\u00e3o d\u00e1 mais, n\u00e3o adianta insistir\u201d, contou em depoimento ao Museu da Pessoa, dentro do setor de Mem\u00f3rias do trabalho, o chapeleiro mineiro Marciliano Gomes Monroe [http:\/\/www.museudapessoa.net\/mtrab\/profissoes_index.htm]. \u201cD\u00e1 para ganhar um pouquinho, para passar o tempo, mas o neg\u00f3cio est\u00e1 fracassado. As pessoas n\u00e3o usam mais chap\u00e9u porque \u00e9 muito mais pr\u00e1tico n\u00e3o usar chap\u00e9u. Ao entrar em qualquer pequeno escrit\u00f3rio, quem est\u00e1 de chap\u00e9u tem que p\u00f4r no porta-cabide. Cad\u00ea o porta-cabide? N\u00e3o tem mais porta-chap\u00e9u. Ent\u00e3o tem que p\u00f4r debaixo do bra\u00e7o e isso vai desestimulando o interesse de usar chap\u00e9u. Na igreja n\u00e3o pode usar chap\u00e9u, no F\u00f3rum n\u00e3o pode usar chap\u00e9u.\u201d<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a \u00e9 sempre esperada ao passo que continuamos a existir no tempo e no espa\u00e7o. No entanto, talvez nos surpreendamos com o fato de que alguns dos desafios enfrentados por muitos trabalhadores continuam bem pr\u00f3ximos \u00e0queles do final do s\u00e9culo XIX. Os infoprolet\u00e1rios de hoje continuam a trabalhar ao toque do rel\u00f3gio, agora digital. O Primeiro de Maio permanece, em muitos dos seus sentidos originais, presente em uma mem\u00f3ria coletiva que n\u00e3o tem hora para acabar de trabalhar.<\/p>\n<p>Ricardo M. Pimenta<br \/>\nDoutor em Mem\u00f3ria Social. Pesquisador da Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional e professor do curso de Hist\u00f3ria das universidades Candido Mendes (Ucam) e Uniabeu.<\/p>\n<p>Postado por Ernesto Albuquerque<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia de que tipo de trabalho? 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