{"id":2365,"date":"2011-04-22T16:38:56","date_gmt":"2011-04-22T19:38:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/?p=2365"},"modified":"2011-04-22T16:39:59","modified_gmt":"2011-04-22T19:39:59","slug":"declaracao-de-amor-de-betinho-para-sua-esposa-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2011\/04\/22\/declaracao-de-amor-de-betinho-para-sua-esposa-maria\/","title":{"rendered":"DECLARA\u00c7\u00c3O DE AMOR DE BETINHO PARA SUA ESPOSA MARIA"},"content":{"rendered":"<p>Betinho escreveu esta carta para Maria, sua esposa, 8 meses antes de sua morte, devido as complica\u00e7\u00f5es da Aids contra\u00edda pelas in\u00fameras transfus\u00f5es de sangue que recebeu por ser hemof\u00edlico. Seus irm\u00e3os Henfil e Chico tiveram o mesmo destino. <\/p>\n<p>UMA CARTA PARA MARIA<br \/>\n(Herbert de Souza &#8211; Betinho)<\/p>\n<p>Este texto \u00e9 para Maria ler depois de minha morte que, segundo meus c\u00e1lculos, n\u00e3o deve demorar muito. \u00c9 uma declara\u00e7\u00e3o de amor. N\u00e3o tenho pressa em morrer, assim como n\u00e3o tenho pressa em terminar esta carta. Vou voltar a ela quantas vezes puder e trabalhar com carinho e cuidado cada palavra.<\/p>\n<p>Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados. N\u00e3o quero triste, quero fazer dela tamb\u00e9m um peda\u00e7o de vida pela via de lembran\u00e7a que \u00e9 a nossa eternidade. Nos conhecemos nas reuni\u00f5es de AP (A\u00e7\u00e3o Popular), em 1970, em pleno Mao\u00edsmo. Havia um clima de sectarismo e medo nada prop\u00edcio para o amor. Antes de me aventurar andei fazendo umas sondagens e os sinais eram animadores, apesar de misteriosos. Mas t\u00ednhamos que come\u00e7ar o namoro de alguma forma.<\/p>\n<p>Foi no \u00f4nibus da Vila das Belezas, em S\u00e3o Paulo. Sa\u00edmos em dire\u00e7\u00e3o ao fim da linha como quem busca um come\u00e7o. E a\u00ed veio o primeiro beijo, sem jeito, espremido, mas gostoso, um beijo p\u00fablico. A barreira da dist\u00e2ncia estava rompida para dar come\u00e7o a uma rela\u00e7\u00e3o que j\u00e1 completou 26 anos! O Mao\u00edsmo estava na China, nosso amor na S\u00e3o Jo\u00e3o. Era muito mais forte que qualquer ideologia. Era a vida em n\u00f3s, t\u00e3o sacrificada na clandestinidade sem sentido e sem futuro.<\/p>\n<p>Fomos viver em um quarto e cozinha, min\u00fasculos nos fundos de uma casa pobre, perto da Igreja da Penha. No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais. Mas como fizemos amor naquele tempo&#8230; Foi incr\u00edvel e seguramente nunca tivemos tanto prazer. Tempos de chumbo, de medo, de susto e inseguran\u00e7a. Medo de dia, amor de noite. Assim vivemos por quase um ano. At\u00e9 que tudo come\u00e7ou a cair. Pris\u00f5es, torturas, pol\u00edcia por toda a parte, o inferno na nossa frente. Fomos para o Chile. E ali, chamado por Garcez para elaborar textos, acabei no agrado de Allende, que os usou em seus discursos oficiais. Foi a primeira vez que eu vi amor virar discurso pol\u00edtico&#8230; Depois passamos por muita coisa at\u00e9 voltar. At\u00e9 que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil? Foi um turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es. O sonho virou realidade. Era verdade, o Brasil era nosso de novo. A primeira coisa foi comer tudo que n\u00e3o hav\u00edamos comido no ex\u00edlio: angu com galinha ao molho pardo, quiabo com carne mo\u00edda, chuchu com maxixe, ab\u00f3bora, cozido, feijoada. Um festival de saudades culin\u00e1rias, um reencontro com o Brasil pela boca.<\/p>\n<p>Uma das maiores emo\u00e7\u00f5es da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de voc\u00ea. Emo\u00e7\u00e3o sem fim e sem limite que me fez reencontrar a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Depois do ex\u00edlio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalh\u00e1vamos, viaj\u00e1vamos nas f\u00e9rias, visit\u00e1vamos os amigos, o Ibase funcionava, at\u00e9 a hemofilia parecia que havia dado uma tr\u00e9gua. Henrique crescia, Daniel aos poucos se reaproximava de mim, j\u00e1 como filho e amigo.<\/p>\n<p>Mas como uma trag\u00e9dia que vem \u00e0s cegas e entra pelas nossas vidas, est\u00e1vamos diante do que nunca esperei. A Aids. Em 1985, surge a not\u00edcia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemof\u00edlicos. O p\u00e2nico foi geral. Eu, \u00e9 claro, havia entrado nessa. N\u00e3o bastava ter nascido mineiro, cat\u00f3lico, hemof\u00edlico, mao\u00edsta e meio deficiente f\u00edsico&#8230; Era necess\u00e1rio entrar na onda mundial, na praga do s\u00e9culo, mortal, definitiva, sem cura, sem futuro e fatal. E foi a\u00ed que voc\u00ea, mais do que nunca, revelou que \u00e9 capaz de superar a trag\u00e9dia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado. A Aids selou um amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, a tenta\u00e7\u00e3o do desespero, o des\u00e2nimo diante do futuro. Continuar tudo apesar de tudo, o beijo, o carinho e a sensualidade.<\/p>\n<p>Assumi publicamente minha condi\u00e7\u00e3o de soropositivo e voc\u00ea me acompanhou. Nunca p\u00f4s um sen\u00e3o ou um coment\u00e1rio sobre cuidados necess\u00e1rios. Deu a m\u00e3o e seguiu junto como se fosse metade de mim, insepar\u00e1vel. E foi. Desde os tempos do c\u00f3lera, da n\u00e3o esperan\u00e7a, da morte do Henfil e Chico, passando pelas crises que beiravam a morte at\u00e9 o coquetel que reabriu as esperan\u00e7as. Tempo curto para descrever, mas uma eternidade para se viver. Um dos maiores problemas da Aids \u00e9 o sexo. Ter rela\u00e7\u00f5es com todos os cuidados ou n\u00e3o ter? Todos os cuidados s\u00e3o suficientes ou n\u00e3o se deve correr riscos com a pessoa amada? Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas at\u00e9 sexo nenhum, s\u00f3 carinho. Preferi a seguran\u00e7a total ao m\u00ednimo risco. Parei, paramos e sem dramas, com car\u00eancias, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da m\u00fasica, da boa comida, da literatura, da inven\u00e7\u00e3o, dos pequenos prazeres e da paz. Viver \u00e9 muito mais do que fazer sexo. Mas para se viver isso \u00e9 necess\u00e1rio que Maria tamb\u00e9m sinta assim e seja capaz dessa metamorfose, como foi.<\/p>\n<p>Para se falar de uma pessoa com total liberdade \u00e9 necess\u00e1rio que uma esteja morta e eu sei que este ser\u00e1 o meu caso. Irei ao meu enterro sem grandes penas e principalmente sem trabalho, carregado. N\u00e3o tenho curiosidade para saber quando, mas sei que n\u00e3o demora muito. Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte n\u00e3o \u00e9 ocasi\u00e3o para se chorar, mas para celebrar um fim, uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas&#8230; \u00e9 morrer muitas vezes em uma s\u00f3. Morrer sem o outro \u00e9 partir sozinho. O olhar do outro \u00e9 que te faz viver e descansar em paz. O ideal \u00e9 que pudesse morrer na minha cama e sem dor, tomando um saqu\u00ea gelado, um bom vinho portugu\u00eas ou uma cerveja gelada.<\/p>\n<p>Te amo para sempre,<br \/>\nBetinho<br \/>\nItatiaia, janeiro de 1997.<\/p>\n<p>Postado por Ernesto Albuquerque<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Betinho escreveu esta carta para Maria, sua esposa, 8 meses antes de sua morte, devido as complica\u00e7\u00f5es da Aids contra\u00edda pelas in\u00fameras transfus\u00f5es de sangue que recebeu por ser hemof\u00edlico. Seus irm\u00e3os Henfil e Chico tiveram o mesmo destino. 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