{"id":2036,"date":"2011-03-12T19:32:21","date_gmt":"2011-03-12T22:32:21","guid":{"rendered":"http:\/\/radiocidadania.com.br\/blog\/?p=2036"},"modified":"2011-03-12T19:32:21","modified_gmt":"2011-03-12T22:32:21","slug":"adib-jatene-ma-distribuicao-e-falta-de-medicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2011\/03\/12\/adib-jatene-ma-distribuicao-e-falta-de-medicos\/","title":{"rendered":"ADIB JATENE: M\u00c1 DISTRIBUI\u00c7\u00c3O E FALTA DE M\u00c9DICOS"},"content":{"rendered":"<p>Desigualdade na escassez, al\u00e9m de faltarem m\u00e9dicos, eles est\u00e3o mal distribu\u00eddos pelo Brasil<\/p>\n<p>Dados do Conselho Federal de Medicina mostram que possu\u00edmos no Pa\u00eds 340 mil m\u00e9dicos, o que para uma popula\u00e7\u00e3o de 190 milh\u00f5es representa 1,78 m\u00e9dicos para cada mil habitantes, n\u00famero insuficiente quando comparado com os 2,6 nos Estados Unidos, 3 na Argentina, 3,2 na Europa Ocidental, 3,8 em Portugal e 6,6 por mil habitantes em Cuba.<\/p>\n<p>A necessidade de apenas um por mil habitantes \u00e9 anterior aos anos 60, quando dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o viviam no campo. A conclus\u00e3o \u00e9 que faltam m\u00e9dicos, deixando largas parcelas da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda com acesso limitado a esse profissional. Essa defici\u00eancia \u00e9 agravada pela distribui\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos no territ\u00f3rio nacional. Mais da metade encontra-se nas capitais, enquanto nessas cidades vive apenas 20% da popula\u00e7\u00e3o. Isso pode levar \u00e0 conclus\u00e3o de que, nas capitais, o n\u00famero de m\u00e9dicos \u00e9 suficiente. Quando se verifica que Vit\u00f3ria possui um m\u00e9dico para 127 habitantes (7,8\/mil), Recife tem um m\u00e9dico para 213 habitantes (4,7\/mil), Porto Alegre um m\u00e9dico para 180 habitantes (5,5\/mil), S\u00e3o Paulo um m\u00e9dico para 312 habitantes (3,2\/mil), a conclus\u00e3o de que as capitais est\u00e3o bem atendidas parece correta.<\/p>\n<p>Ocorre que a concentra\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos acompanha, aproximadamente, a distribui\u00e7\u00e3o dos hospitais. E quando analisamos, por exemplo, na capital de S\u00e3o Paulo a disponibilidade de leitos hospitalares salta \u00e0 vista a desigualdade da distribui\u00e7\u00e3o. Em 1999, fizemos um levantamento juntamente com Vivaldo Luconti, da Funda\u00e7\u00e3o Seade. A cidade de S\u00e3o Paulo, \u00e0 \u00e9poca com 10 milh\u00f5es de habitantes, estava dividida em 96 distritos.<\/p>\n<p>Nos 25 distritos da \u00e1rea mais rica e mais antiga da cidade, onde moravam 1,8 milh\u00e3o de pessoas, existiam 13 leitos por mil habitantes. Assinala-se que 3\/1.000 \u00e9 n\u00famero considerado adequado. Nos outros 71 distritos, onde viviam 8,2 milh\u00f5es de habitantes, existia 0,6 leito para cada mil habitantes. E em 39 distritos desse total, com 4 milh\u00f5es de habitantes, n\u00e3o existia nenhum leito, zero. Esse panorama encontra-se em praticamente todas as grandes cidades e \u00e1reas metropolitanas no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ficam, por isso, grandes parcelas da popula\u00e7\u00e3o, mesmo nas capitais, sem o acesso a m\u00e9dico. Se a isto associarmos munic\u00edpios de \u00e1reas mais carentes ou long\u00ednquas, onde n\u00e3o existem m\u00e9dicos, fica claro que alguma coisa deve ser feita.<br \/>\nDesde 1996, decidiu-se aumentar o n\u00famero de cursos m\u00e9dicos. De, aproximadamente, 9 mil vagas, hoje ultrapassamos 15 mil e o n\u00famero de faculdades, que era de 82, ampliou-se para 180. Entretanto, isso n\u00e3o foi acompanhado de melhora da distribui\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos, pois eles n\u00e3o est\u00e3o sendo preparados para cuidar da popula\u00e7\u00e3o, mas para disputar vagas em resid\u00eancia m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Embora tenha aumentado o n\u00famero de vagas para resid\u00eancia, de um lado, ela n\u00e3o comporta todos os formados e, de outro, serve mais para encaminh\u00e1-los \u00e0s especialidades m\u00e9dicas, que se concentram nos grandes hospitais, e n\u00e3o para cuidar da popula\u00e7\u00e3o carente, sem a utiliza\u00e7\u00e3o da moderna tecnologia, agravando, em vez de minorar, a despropor\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o. Por outro lado, alunos que pagam mensalidades superiores a 3 mil reais, chegando a 6 mil reais, n\u00e3o se disporiam a trabalhar em \u00e1reas carentes. O Hospital Santa Marcelina, em S\u00e3o Paulo, ofereceu 16 vagas para resid\u00eancia em Sa\u00fade da Fam\u00edlia. Apareceu apenas um candidato.<\/p>\n<p>Desde 1995, o Pa\u00eds implanta o programa de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, que j\u00e1 recrutou mais de 250 mil agentes comunit\u00e1rios e comp\u00f4s cerca de 30 mil equipes de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, existindo em 93% dos munic\u00edpios brasileiros, cobrindo mais de 85 milh\u00f5es de habitantes. O programa precisa ser duplicado e, se hoje h\u00e1 dificuldade para aliciar m\u00e9dicos, trabalhando em regime de tempo integral junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, seria imposs\u00edvel cobrir a nossa necessidade, mantendo o esquema que temos hoje.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que os quase 16 mil m\u00e9dicos graduados por ano sejam preparados para atender a popula\u00e7\u00e3o sem necessidade de usar a alta tecnologia, reservada aos casos mais complexos e, esses m\u00e9dicos, incorporados no seio da popula\u00e7\u00e3o. A pr\u00e1tica dos \u00faltimos 20 anos tem demonstrado que a estrat\u00e9gia que utilizamos n\u00e3o conseguir\u00e1 mudar a situa\u00e7\u00e3o, pois na verdade estimulam a especializa\u00e7\u00e3o, que agrava a concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso inovar e nesse campo significa propor medidas para corrigir, em prazo relativamente curto, o problema da distribui\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos.<br \/>\nEssa inova\u00e7\u00e3o passa pelo ensino m\u00e9dico, que n\u00e3o pode ser entendido como um neg\u00f3cio ou fonte de prest\u00edgio para entidades ou munic\u00edpios, mas como a maneira de criar profissionais que venham resolver problemas que exijam uma resposta capaz de minorar os problemas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como todos os estados t\u00eam faculdades de medicina, alguns at\u00e9 com excesso de vagas, talvez fosse o momento de se criarem est\u00e1gios de um ou dois anos no estado no qual se graduaram, prestando servi\u00e7o no programa de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, como pr\u00e9-requisito para resid\u00eancia m\u00e9dica. Dessa forma, os que terminarem o curso m\u00e9dico, em vez de se prepararem para prestar concurso para resid\u00eancia, se preparem para atender \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais frequentes que afetam a popula\u00e7\u00e3o. Isso significaria, em dois anos, poder criar mais de 30 mil equipes de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, cobrindo o d\u00e9ficit de acesso da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Simultaneamente, criar ambulat\u00f3rios de especialidades ou unidades de pronto-atendimento, para dar cobertura aos m\u00e9dicos de fam\u00edlia e permitir que eles tenham acesso a leitos hospitalares o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da resid\u00eancia de seus pacientes.<\/p>\n<p>Programa dessa magnitude exige um aporte de recursos, que, se n\u00e3o for mobilizado, impede que se fale em prioridade para a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Desde 1980, os profissionais de sa\u00fade apontam caminhos. At\u00e9 hoje, embora convivendo com autoridades dos tr\u00eas n\u00edveis que sempre proclamaram prioridade para a sa\u00fade, o problema, apesar de conquistar algumas vit\u00f3rias, deixa muito a desejar. E isso porque sa\u00fade nunca foi prioridade.<\/p>\n<p>Escrito por Adib Jatene &#8211; m\u00e9dico e ex-ministro da Sa\u00fade nos governos Collor (1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-1996).<br \/>\nPostado por Ernesto Albuquerque<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desigualdade na escassez, al\u00e9m de faltarem m\u00e9dicos, eles est\u00e3o mal distribu\u00eddos pelo Brasil Dados do Conselho Federal de Medicina mostram que possu\u00edmos no Pa\u00eds 340 mil m\u00e9dicos, o que para uma popula\u00e7\u00e3o de 190 milh\u00f5es representa 1,78 m\u00e9dicos para cada mil habitantes, n\u00famero insuficiente quando comparado com os 2,6 nos Estados Unidos, 3 na Argentina, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","jetpack_publicize_message":""},"categories":[9],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pYpuv-wQ","jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2036"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2036"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2036\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2038,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2036\/revisions\/2038"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2036"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2036"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2036"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}