{"id":1970,"date":"2011-02-28T23:39:12","date_gmt":"2011-03-01T02:39:12","guid":{"rendered":"http:\/\/radiocidadania.com.br\/blog\/?p=1970"},"modified":"2011-02-28T23:39:12","modified_gmt":"2011-03-01T02:39:12","slug":"sotaque-mineiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/2011\/02\/28\/sotaque-mineiro\/","title":{"rendered":"SOTAQUE MINEIRO"},"content":{"rendered":"<p>Minas, mineir\u00eas e mineirices v\u00e3o virar livro<\/p>\n<p>Modo t\u00edpico de falar dos mineiros \u00e9 objeto de pesquisa<\/p>\n<p>Paulo Henrique Silva &#8211; Rep\u00f3rter <\/p>\n<p>Sotaque celebrado em prosa e verso, o &#8220;mineir\u00eas&#8221; pode ter origem nas l\u00ednguas africanas, ap\u00f3s Minas Gerais receber um dos maiores contingentes de popula\u00e7\u00e3o negra escrava nos s\u00e9culos XVIII e XIX. \u00c9 o que aponta pesquisa de Patr\u00edcia Cunha Lacerda, p\u00f3s-doutorada em lingu\u00edstica pela UFMG e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).<\/p>\n<p>&#8220;O componente escravo foi importante na constru\u00e7\u00e3o do dialeto mineiro. Apesar de todo o preconceito, n\u00e3o podemos apagar esses relatos hist\u00f3ricos&#8221;, afirma Patr\u00edcia, que destaca a predomin\u00e2ncia africana em duas das tr\u00eas regi\u00f5es &#8220;lingu\u00edsticas&#8221; categorizadas pelo professor M\u00e1rio Z\u00e1gari no &#8220;Atlas Lingu\u00edstico de Minas Gerais&#8221;.<\/p>\n<p>Diferentemente do falar &#8220;paulista&#8221;, detectado no sul e no Tri\u00e2ngulo e origin\u00e1rio principalmente dos bandeirantes, os falares &#8220;mineiro&#8221; (Zona da Mata e Campo das Vertentes) e &#8220;baiano&#8221; (regi\u00e3o norte) teriam maior influ\u00eancia dos milhares de negros traficados para o Estado, especialmente durante o auge da produ\u00e7\u00e3o aur\u00edfera.<\/p>\n<p>Em sua pesquisa, Patr\u00edcia se deteve no falar &#8220;mineiro&#8221;, reconhecendo em documentos de \u00e9poca (processos criminais, em sua maioria) os tra\u00e7os caracter\u00edsticos da oralidade dos povos africanos, como a monota\u00e7\u00e3o do ditongo \u2013 dizer &#8220;oro&#8221; no lugar de &#8220;ouro&#8221; ou &#8220;cadera&#8221; ao inv\u00e9s de &#8220;cadeira&#8221;.<\/p>\n<p>Por consequ\u00eancia do processo tardio de escolariza\u00e7\u00e3o (a primeira escola de Juiz de Fora data de 1860), os escravos aprenderam a l\u00edngua de forma irregular, impregnando tra\u00e7os da pr\u00f3pria linguagem. &#8220;Como eram maioria, cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o, o portugu\u00eas absorveu esses tra\u00e7os&#8221;.<\/p>\n<p>Entre as principais caracter\u00edsticas do falar mineiro est\u00e3o ainda o alteamento da vogal pret\u00f4nica (&#8220;m\u00ednino&#8221;) e a ditonga\u00e7\u00e3o diante de sibilante (&#8220;treis&#8221;).<\/p>\n<p>A pesquisa, que ganhar\u00e1 forma de livro, passa por uma continua\u00e7\u00e3o, analisando a parte morfossint\u00e1tica, detendo-se na estrutura da l\u00edngua e suas particularidades. Patr\u00edcia destaca que, apesar de uma predomin\u00e2ncia africana, n\u00e3o se pode relevar a influ\u00eancia da imigra\u00e7\u00e3o, como a italiana e a alem\u00e3, que se tornou importante m\u00e3o-de-obra a partir do final do s\u00e9culo XIX. O tema tamb\u00e9m deve merecer um livro em breve.<\/p>\n<p>Menino \u00e9 minino na capital<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o africana na constru\u00e7\u00e3o da fala n\u00e3o \u00e9 ponto de consenso entre linguistas. &#8220;Afirmar que a principal influ\u00eancia veio da \u00c1frica \u00e9 inadequado, porque implica uma simplifica\u00e7\u00e3o grosseira: aceitar que todos os africanos falavam a mesma l\u00edngua ou que n\u00e3o havia diferen\u00e7a entre as v\u00e1rias l\u00ednguas faladas por africanos&#8221; \u2013 observa J\u00e2nia Ramos, professora da UFMG que prepara livro sobre o linguajar da capital mineira (&#8220;O Mineir\u00eas e a Fala dos Belo-horizontinos&#8221;).<\/p>\n<p>Em sua pesquisa, Patr\u00edcia Lacerda defende que, &#8220;apesar da exist\u00eancia de v\u00e1rios povos com suas particularidades (&#8230;), eles mantinham afinidades lingu\u00edsticas e culturais, podendo ser designados de forma comum no macro grupo dos bantos&#8221;.<\/p>\n<p>Banto seria uma designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, criada a partir de afinidades lingu\u00edsticas e culturais.<\/p>\n<p>Apesar dessa diferen\u00e7a de vis\u00f5es, J\u00e2nia e Patr\u00edcia seguem a mesmo divis\u00e3o proposta por M\u00e1rio Z\u00e1gari. Em sua pesquisa, J\u00e2nia tenta responder a algumas quest\u00f5es, como o fato de os belo-horizontinos, quando entrevistados, reconhecerem o padr\u00e3o mineiro como muito pr\u00f3ximo do brasileiro, enquanto os n\u00e3o belo-horizontinos o percebem como um linguajar distante do padr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Podemos at\u00e9 agora afirmar que os falantes nascidos na capital n\u00e3o usam o r caipira. Falam minino em lugar de menino. Recorrem, preferencialmente, ao tempo presente, em vez do imperativo \u2013 faz isso para mim e n\u00e3o fa\u00e7a isso para mim. Dizem n\u00f3 e Nossa como interjei\u00e7\u00e3o. Esses tra\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o, de fato, especificidades, porque outros brasileiros tamb\u00e9m os apresentam. A quest\u00e3o se coloca em termos de frequ\u00eancia e n\u00e3o de ocorr\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o a outros&#8221;, registra.<\/p>\n<p>Longe dos estudos acad\u00eamicos, o procurador da Rep\u00fablica Felipe Peixoto Bragan\u00e7a Netto vem se dedicando ao tema em cr\u00f4nicas. Ele avisa que o sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. &#8220;Porque, se tudo que \u00e9 bom tem um desses horr\u00edveis efeitos colaterais, como \u00e9 que o falar sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?&#8221;, pergunta ele.<\/p>\n<p>Num texto que recebe, justamente, o t\u00edtulo de &#8220;Sotaque mineiro: \u00e9 ilegal, imoral ou engorda?&#8221;, publicado no livro &#8220;As coisas simp\u00e1ticas da vida&#8221; (Landy Editora), Bragan\u00e7a Netto observa que os mineiros t\u00eam \u00f3dio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se l\u00e1 por que, abandon\u00e1-las no meio do caminho (n\u00e3o dizem: pode parar, dizem: p\u00f3 parar. N\u00e3o dizem: onde eu estou?, dizem: \u00f4nd\u00f4t\u00f4?).<\/p>\n<p>Ele destaca tamb\u00e9m que o aqui \u00e9 &#8220;antecedente obrigat\u00f3rio, sob pena de puni\u00e7\u00e3o p\u00fablica, de qualquer frase. \u00c9 mais usado, no entanto, quando voc\u00ea quer falar e n\u00e3o est\u00e3o lhe dando muita aten\u00e7\u00e3o: \u00e9 uma forma de dizer Ol\u00e1, me escutem, por favor&#8221;.<br \/>\nFontes: Hoje em Dia\/Blog do Nassif<br \/>\nPostado por Ernesto Albuquerque<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minas, mineir\u00eas e mineirices v\u00e3o virar livro Modo t\u00edpico de falar dos mineiros \u00e9 objeto de pesquisa Paulo Henrique Silva &#8211; Rep\u00f3rter Sotaque celebrado em prosa e verso, o &#8220;mineir\u00eas&#8221; pode ter origem nas l\u00ednguas africanas, ap\u00f3s Minas Gerais receber um dos maiores contingentes de popula\u00e7\u00e3o negra escrava nos s\u00e9culos XVIII e XIX. \u00c9 o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","jetpack_publicize_message":""},"categories":[1],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pYpuv-vM","jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1970"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1970"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1970\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1971,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1970\/revisions\/1971"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.radiocidadania.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}