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abril 22nd, 2012 by claudioadmin
Portugal planejou a conquista do Brasil
Em 22 de abril de 1500, a esquadra portuguesa, composta por dez naus e três caravelas, sob as ordens do fidalgo Pedro Álvares Cabral, chegou ao litoral baiano – o local exato do desembarque ainda é motivo de discussão entre moradores de Porto Seguro e de Baía Cabrália. Alguns continuam insistindo em usar a expressão “descobrimento do Brasil”, quando o correto é “conquista do Brasil”, gostem ou não os simpatizantes do colonialismo lusitano.
O termo deturpado passou a ser comum depois do decreto de Felipe II, da Espanha, em 1556, proibindo o uso da expressão “conquista da América” nos documentos oficiais, porque preservava na memória a existência de guerra, invasão, massacre, luta entre o conquistador europeu e os povos americanos ou pré-colombianos. Tal decreto alcançou o Brasil quando este passou a pertencer à coroa espanhola durante a crise sucessória, de 1580 a 1640. E para camuflar ações violentas dos colonizadores portugueses, tornou-se comum ouvir que “Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil”.
firmar a descoberta do Brasil pelos portugueses pressupõe a crença de que estes desconheciam a existência destas terras. Sendo assim, não haveria sentido em o rei dom João II lutar pela assinatura de um tratado com a Espanha que favorecesse seu país, assegurando-lhe boa porção de terras no novo continente, cerca de seis anos antes da chegada de Cabral.
Inter Coetera
Com o retorno de Colombo à Europa, em 1492, após a primeira viagem à América, os reis católicos da Espanha, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, trataram de garantir as terras conquistadas solicitando ao papa Alexandre VI – Rodrigo Borgia -, que era espanhol, um documento concedendo-lhes os direitos de posse. Assim, a Bula Inter Coetera (Entre Outras Coisas) delegava todas as terras do Ocidente ao reino espanhol. Trabalhando rápido, os espiões palacianos alertaram dom João II, de Portugal, que protestou e ameaçou iniciar um conflito na Península Ibérica.
No ano seguinte, 1493, pressionado pela ala católica portuguesa, o papa Alexandre VI assinou a segunda Bula Inter Coetera, estabelecendo a divisão das terras americanas entre Espanha e Portugal. Nela, ele determinava que todas as “terras” até cem léguas das ilhas de Cabo Verde seriam de Portugal, além disto, a oeste, seriam da Espanha. Sentindo-se enganado, pois só restava a Portugal o Oceano Atlântico, o rei ameaçou novamente iniciar uma guerra contra a Espanha.
Apavorados, os espanhóis recorreram ao chefe da Igreja que, em 1494, emitiu a terceira Bula Inter Coetera, traçando nova linha imaginária a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde. As condições foram aceitas e o acordo assinado em 7 de junho na cidade espanhola de Tordesilhas, dando nome ao tratado divisório. O jornalista e historiador Eduardo Bueno, em Capitães do Brasil, corrobora com esse fato. “Em 1494, castelhanos e portugueses tinham dividido o mundo ente si. Alijados daquela partilha, os franceses não aceitavam a validade jurídica dos acordos firmados na pequena cidade de Tordesilhas”, pois contra este se levantou o rei francês Francisco I, perguntando onde estava “o testamento de Adão dividindo o mundo entre Portugal e Espanha”.
Outros conquistadores
É provável que outro navegador (ou outros) aportou por aqui antes de 1500, conforme documentos da época. Em 1498, o rei dom Manuel ordenou a Duarte Pereira viajar pela mesma rota de Vasco da Gama. Entretanto, em seu relato, no livro Esmeraldo de situ orbi, Duarte Pereira cita a ordem secreta do rei mandando “descobrir a parte ocidental, passando além da grandeza do mar Oceano, onde foi achada e navegada uma tão grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes”. Talvez, a este, deva-se o mérito de ser o primeiro português a chegar ao Brasil.
Sabe-se hoje que os fenícios (séc. X ao IV a.C.) estiveram no Rio de Janeiro, conforme inscrições (contestadas por pesquisadores) na Pedra da Gávea. Além destes, outros fenícios, sob as ordens do rei Zedequias de Judá, estiveram na Argentina, próximo a La Rioja. No ano 1000 d.C. o viking Leif Erickson alcançou a costa canadense, bem antes do italiano Giovanni Caboto levar os méritos da tal façanha, em 1497, a serviço da coroa britânica.
Ensina-se, então, às crianças, que portugueses e espanhóis “descobriram” uma terra com cerca de 88 milhões de habitantes e não um vazio demográfico. Uma contradição em termos. Além disso, alguns dos povos pré-colombianos eram muito mais avançados em civilização do que qualquer nação européia da época.
Os astecas, no México, dominavam as técnicas da ourivesaria, cerâmica e tecelagem, realizavam grandes construções e tinham escrita e calendário próprios. Já os maias construíram grandes pirâmides e criaram um calendário muito preciso, tendo também um sistema de escrita. Enquanto os europeus estavam presos à ignorância e ao atraso científico, estes estudavam o espaço em observatórios de astronomia. Na América do Sul, uma das mais avançadas civilizações do Ocidente, a incaica, pavimentava estradas, construía aquedutos e canais de irrigação.
Alguns podem apontar as mazelas existentes entre os povos nativos como provas de sua brutalidade e incivilidade. Não é possível se esquecer da violência empregada pela inquisição na Europa, as infindáveis guerras e invasões justificadas sob o pretexto da expansão da fé ou da vaidade de nobres acéfalos. Portanto, o que ocorreu a partir de 1492 foi a invasão da América pelos portugueses e espanhóis que, impiedosamente, em nome do cristianismo espúrio, barbarizaram milhões de habitantes deste continente, conquistando-o definitivamente.
E foi esse perfil grotesco que norteou parte das características dos habitantes das futuras nações do continente, muito bem-retratadas em Terra Papagalli pelos jornalistas e romancistas José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta: “E daquela terra que hoje chamam Brasil, esquecendo o nome que lhe deram seus primeiros moradores, digo que pouco proveito se pode tirar dela, porque vem se povoando com homens cobiçosos… está bem parecida com a nossa (Portugal), onde reinam a burla, a roubaria e mais pode quem é mais velhaco… naquela terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido.” Não há necessidade de se interpretar a fiel representação delineada por Torero e Pimenta. Quem lê, entenda conforme a água agita sua embarcação.
(Texto baseado em “Cabral Conquistou o Brasil”, artigo publicado em O Estado do Paraná, em 22/4/1997, e no livro Liberdade Vigiada, em 2002)
Fonte: Assis Ribeiro – Outra Leitura
Postado por Ernesto Albuquerque
TOQUINHO FALA SOBRE O SUMIÇO DE TENÓRIO JR NA ARGENTINA
abril 22nd, 2012 by claudioadminTenório Jr: O sumiço que ninguém nunca soube explicar
Da Carta Maior
Tenório Jr: O sumiço que ninguém nunca soube explicar Seis dias antes de a cúpula militar argentina dar o golpe de Estado que derrubou María Estela Martínez Cartas de Perón, o pianista brasileiro Tenório Jr., que acompanhava Vinícius de Moraes e Toquinho em uma turnê por Buenos Aires, saiu para comprar cigarros e remédios e não voltou mais. Seu desaparecimento nunca foi esclarecido. Em entrevista à Carta Maior, Toquinho conta de sua relação com Tenório e opina sobre a responsabilidade do Estado brasileiro diante do caso.
…..No dia 18 de março de 1976, o músico brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior se tornou, sem saber, um inimigo do Estado argentino. Saiu do Hotel Normandie no meio daquela madrugada e deixou um bilhete colado na porta do quarte de um dos colegas: “Vou sair pra comprar cigarro e um remédio. Volto Logo”. Não voltou mais.
Pianista do bairro fluminense das Laranjeiras, Tenório acompanhava Vinícius de Moraes e Toquinho em apresentação no imponente teatro Gran Rex, na Avenida Corrientes 857, a menos de 200 metros do Obelisco de Buenos Aires. Não tinha nenhum envolvimento com questões políticas e, aos 35 anos, já havia lançado um disco (Embalo, 1964). Ao sair para a turnê, deixou no Brasil quatro filhos e a esposa Elisa Cerqueira, grávida de oito meses.
Depois daquela noite, Vinícius, Toquinho e alguns amigos, entre eles Ferreira Gullar, exilado em Buenos Aires, se mobilizaram para procurá-lo em hospitais e delegacias, além de terem buscado ajuda na Embaixada do Brasil.
Foi apenas em 1986 que o ex-torturador argentino Claudio Vallejos, ex-membro do Serviço de Informação Naval, falou sobre o destino de Tenório em entrevista concedida à revista Senhor (n° 270). Abordado por agentes da repressão de uma ditadura que estava prestes a ser instaurada, o pianista foi confundido com um ativista político e colocado em um Ford Falcon verde enquanto caminhava a poucos metros do hotel Normandie. Segundo Vallejos, Tenório foi levado para a ESMA (Escola de Mecânica da Armada) e apanhou tanto que, quando se deram conta de que ele não era um militante, já não havia mais jeito. Estava tão machucado, que só restou aos repressores a opção de matá-lo. Após sessões de tortura, o tiro fatal foi disparado por Alfredo Astiz no porão da parte antiga da ESMA.
Nesta entrevista concedida à Carta Maior, Toquinho – que homenageou seu ex-pianista com a música “Lembranças” (1981) (clique para ouvir), parceria com o compositor Mutinho – conta de sua relação com Tenório e opina sobre a responsabilidade do Estado brasileiro diante do caso. “A dúvida que paira sobre o assunto não combina com um Estado Democrático”, afirma o músico.
Qual era sua relação com o Tenório Jr.?
Tenório fazia parte da banda que nos acompanhava naquela temporada pela Argentina, em 1976. Era um excelente pianista, uma pessoa tranquila, dedicada ao seu trabalho e amigo de todos. Minha relação de amizade com ele se dava em consequência de nossa atividade profissional.
Em que momento o senhor percebeu que o Tenório Jr estava demorando demais para quem havia ido comprar cigarros?
A temporada de shows já havia terminado. Estávamos em Buenos Aires para no dia seguinte embarcarmos para o Brasil. Ele saiu de madrugada para comprar cigarros e não voltou. De manhã demos pela falta dele. A situação política na Argentina vivia um clima de terror, até a polícia não se entendia, era uma confusão geral. Na época, o ex-genro do Vinicius era cônsul na Embaixada Brasileira. Deu todo o apoio na procura de uma definição sobre o caso de Tenório. Ficamos lá mais dois dias aguardando uma confirmação sobre o sumiço dele.
Quando o senhor se deu conta de que ele podia ter sido sequestrado por motivos políticos?
A própria Embaixada nos alertou para isso. Devido ao desencontro das ações policiais, estavam prendendo todos aqueles que parecessem suspeitos. E Tenório era um tipo original, muito alto, de barba, cabelos longos, usava um capote comprido, foi confundido com alguém.
Qual foi sua reação quando soube que ele havia sido assassinado?
Algum tempo depois houve essa confirmação de que muito possivelmente ele havia sido executado. No meu entender, ele pode ter sido torturado e, diante da ineficácia da tortura, e pela ação da própria Embaixada brasileira, a polícia deduziu que havia prendido e torturado o pianista da banda de Vinicius e Toquinho. E o executaram definitivamente porque seria imprudente para o sistema que ele continuasse vivo.
E como a banda reagiu à notícia?
Com muita tristeza e uma grande dose de revolta.
O senhor acredita na versão contada por Claudio Vallejos sobre o sequestro e a morte do Tenório?
Não conheço essa versão.
Claudio Vallejos contou, em entrevista concedida no Brasil, que Tenório foi morto no dia 25 de março daquele ano pelo jovem torturador Alfredo Astiz na ESMA e que teria sido preso por ter estereótipo de um “inimigo do Estado argentino”. O senhor acredita nesta versão?
É bem possível, principalmente pela hipótese de Tenório ter sido confundido com algum “inimigo do Estado argentino”.
Em sua opinião, o Estado brasileiro foi omisso na época?
Pelo menos no que se refere à Embaixada Brasileira, tudo foi feito para que o caso fosse esclarecido. Recebemos todo apoio para isso. Mas não tenho informações claras sobre outros setores do governo.
O Brasil poderia, hoje, tomar alguma providência em relação ao caso, em sua avaliação?
Tudo deve ser feito em busca da verdade. Acredito que a Comissão da Verdade possa ser um caminho para esclarecer este caso. A dúvida que paira sobre o assunto não combina com um Estado Democrático.
O senhor tem alguma relação ou contato com a família dele?
Contato direto não, mas anos atrás apoiei uma campanha para que a família fosse ressarcida em reparação aos danos causados pelo desaparecimento deste músico excepcional.
Em 2006, o Estado brasileiro reconheceu ter “feito pouco” para solucionar o mistério acerca do paradeiro de Tenório Jr e o juíz Alfredo França Neto dita a sentença de idenização a Elisa Cerqueira – que nem status de viúva tinha – e aos filhos, por danos morais e materiais.
Em 16 de novembro de 2011, por iniciativa do deputado socialista argentino Raúl Puy, foi colocada uma placa na fachada do hotel Normandie em homenagem a Tenório: “Aqui se hospedou este brilhante músico brasileiro, vítima da ditadura militar argentina”.
Postado por Ernesto Abuquerque
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